Precisão vs. Percepção: entendendo a importância do ajuste óptico

Com todas as facilidades que a tecnologia vem trazendo para a vida dos designers, seria correto falar que finalmente poderemos substituir as nossas “falhas” percepções visuais pela magnífica precisão matemática dos softwares, não é mesmo? Bom, pelo menos foi isso que eu imaginei quando entrei para o universo do design gráfico. Acreditava que bastava confiar nos cálculos dos softwares de criação, pois assim o resultado final seria perfeitamente equilibrado e harmônico. Porém, surpreendentemente, não é bem assim que a banda toca.

O que acontece, na realidade, é que o cérebro humano ainda tem um grande papel nesse processo de análise do equilíbrio visual. Se queremos garantir de fato um ótimo design, não podemos deixar os softwares tomarem decisões importantes por nós. E isso se dá por um simples motivo: apesar de toda precisão dos cálculos realizados pelas ferramentas de criação gráfica, eles ainda não são capazes de considerar, no resultado final, a análise do contexto como um todo.

Quer entender melhor como isso funciona? Então vamos lá.

O que é ajuste óptico?

O ajuste óptico se trata basicamente de jogarmos a favor do cérebro e da forma como ele interpreta as informações visuais. Acontece que, para isso, muitas vezes precisamos burlar algumas leis matemáticas e aplicar certas compensações, nos guiando pelos nossos próprios olhos. Bem intuitivo o nome “ajuste óptico”, não é? 

E apesar de que as sutis alterações realizados em prol desses ajustes sejam percebidas por pouquíssimas pessoas, a ausência delas com toda certeza seria facilmente notada por muitas. Então qual o resultado esperado ao aplicar esse conceito? Equilíbrio e harmonia.

Na prática, o ajuste óptico acontece em três dimensões diferentes. Vamos entender agora como isso funciona.

Formato x escala

Vamos começar com um exemplo prático. Observe as formas abaixo. 

Matematicamente falando, a relação de tamanho entre as formas está correta, visto que elas possuem exatamente as mesmas dimensões de altura e largura. Porém, a leitura que o nosso cérebro faz dessa imagem nos dá a sensação de desequilíbrio visual. Isso porque, aos nossos olhos, o círculo e o triângulo se parecem menores que o quadrado. 

A explicação é simples: formas diferentes, mesmo que de mesmas dimensões, possuem distribuições de peso distintas. Então qual a razão teórica para que nosso cérebro interprete a visualização desses elementos dessa forma? Observe que o quadrado tem mais contato com as linhas guias do que o triângulo, que por sua vez, tem mais contato que o círculo. E é isso que gera, aos nossos olhos, o desequilíbrio visual. Sendo assim, é necessário aplicar compensações para equilibrar o design das formas.

Ou seja, para que “desequilíbrio” e “design” não andem juntos, o nosso olhar enquanto designer, e a nossa percepção enquanto pessoa, devem prevalecer sobre as definições matemáticas das máquinas.

O mesmo princípio acontece com as letras, visto que suas estruturas básicas derivam, basicamente, dessas mesmas formas geométricas: triângulo, quadrado e círculo. Sendo assim, essa dimensão do ajuste óptico é ainda mais importante no que diz respeito à tipografia e ao lettering. Veja o exemplo abaixo.  

Levando em consideração apenas as suas dimensões, sem ponderar suas diferentes formas e pesos as letras não pareceriam harmônicas aos nossos olhos quando colocadas lado a lado. Algumas pareceriam maiores que outras, e esse desequilíbrio visual acabaria atrapalhando a fluidez da leitura.

Posição e alinhamento

Além do tamanho das formas, a precisão dos softwares também pode entrar em conflito com nossos olhos no que diz respeito aos grids. As ferramentas de alinhamento nos fornecem centralizações milimetricamente perfeitas, porém, muitas vezes, a forma como o nosso cérebro interpreta essas informações visuais fazem com que, ainda assim, nossos olhos enxerguem um desequilíbrio notável. Observe os exemplos abaixo:

Observe que, para que o texto se pareça centralizado com relação ao ícone, é necessário considerar a distribuição de peso do símbolo do calendário. Logo, deslocando o texto um pouco para baixo, atingimos a sensação de equilíbrio entre as duas formas.

Aqui, para garantir que o triângulo se pareça centralizado com relação ao círculo, é preciso ponderar a sua distribuição de peso. E para isso, ele deve estar levemente deslocado à direita. O mesmo princípio do contato é válido aqui: o lado esquerdo do triângulo tem muito mais contato com a linha base do que o lado direito. Isso significa que o seu peso está concentrado do lado esquerdo, o que justifica o deslocamento para o lado oposto a fim de atingir o equilíbrio óptico. 

Cor

Esse tipo de ajuste óptico é, ao meu ver, o mais sutil. 

O principal cuidado que aprendemos a tomar no design no que diz respeito à paleta de cores é que, ao utilizar uma determinada cor no seu projeto, é importante utilizar o seu código hexadecimal para garantir que seja aplicado sempre o tom exato daquela cor em todas as vezes que ela for utilizada. Isso garante que não ocorram desvios cromáticos.

Porém, mais uma vez, veremos que em muitos casos, precisamos desapegar dessa precisão ao analisar o contexto do seu design. Vejam o exemplo abaixo:

Conseguiu perceber que no primeiro caso o ícone parece mais escuro que o texto? Isso acontece porque o peso do texto é menor, e para equilibrar essa percepção, precisamos clarear sutilmente o ícone, ou escurecer um pouco o texto. Para isso, é recomendável utilizar as escalas HSB ou HSL para ajustar os valores de B (brilho) ou de L (luminosidade), alterando sutilmente a intensidade da cor.

No entanto, ao realizar essas alterações cromáticas no seu projeto, não se esqueça de checar se as cores escolhidas atendem às diretrizes de acessibilidade.

Conclusão

Resumindo, ajuste óptico se trata de encontrarmos a imperfeição perfeita para cada caso. Nossos olhos e cérebro são excelentes no que devem fazer, mas digamos que identificar posições e colorações numericamente não seja uma das suas atribuições. 

E é entendendo bem o papel de cada um na dualidade precisão versus percepção que se torna possível transformar um bom design em um ótimo design. São aspectos que, isoladamente, são minimamente visíveis. Mas ainda assim, fazem toda diferença no seu produto final. 

No final das contas, se trata de priorizar, na produção do seu projeto, a percepção natural de quem vai consumi-lo ao final do processo: as pessoas.

Quer continuar lendo sobre design? Então conheça os estilos e evoluções dos ícones.


  • Bruna Carvalho
  • Designer de Branding
  • Arquiteta em formação e apaixonada por design, sou movida pela curiosidade de entender melhor as complexidades da comunicação e das experiências proporcionadas às pessoas. Para mim, grandes desafios são grandes combustíveis.

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